BETA – the end…

A opinião pública

Na primeira semana de outubro a TZ Editora publicou a última edição da revista BETA. Desde 2008 a BETA vem informando e discutindo o cinema brasileiro e internacional na versão impressa e trimestral e online. A TZ Editora decidiu frear suas atividades para elaborar um novo formato da revista que …

Sem hipocrisia – Família Vende Tudo

Crítica

SÃO PAULO – Fico pensando nas razões de, nos últimos meses, ter tido surpresas positivas com alguns filmes brasileiros. Não me debruço nisso pelo fato de serem bons, mas pela surpresa. Depois de mais de 20 anos de cinefilia, você mais ou menos sabe o que tem chance de te …

Felicidade clandestina – “El premioâ€, de Paula Markovitch

Crítica

BUENOS AIRES – Paula Markovitch assume sem rodeios que El premio, seu primeiro longa-metragem, é autobiográfico sim: o filme nasceu a partir das vívidas lembranças que Paula trazia da infância, durante os anos de chumbo da Argentina. Mas El premio não é uma produção do país vizinho, apesar da diretora, …

Traveco família – Elvis & Madona

Crítica

SÃO PAULO – A sinopse e o trailer dão toda a pinta de que Elvis & Madona (assim mesmo, com um “n†só) vá ser um melodrama com pinceladas de comédia, uma tentativa tupi de produzir algo nos calcanhares de Almodóvar. Mas, se o diretor espanhol é referência confessa, o …

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Últimos Artigos

Bo(o)m dos trópicos – cinema tailandês contemporâneo

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Por: Natalia Barrenha
Eternity 4

BUENOS AIRES – Há uns dez anos, mais ou menos, a Tailândia nem existia no mapa cinematográfico mundial – o cinema nacional desfrutava de uma enorme popularidade interna (principalmente com os filmes de muay thai, o boxe tailandês), mas não dava sinais de vida além-fronteiras. Bolha asiática + pesados investimentos estrangeiros + novas tecnologias dos anos 00 + Apichatpong Weerasethakul = aqui estamos nós, brasileiros, com duas joias tailandesas na Mostra Mundial do Indie Festival 2011.

O Indie Festival deste ano já passou por sua terra natal, Belo Horizonte, e agora está em São Paulo até 29 de setembro. Com exibições no CineSesc e Cine Olido (vale lembrar que a entrada é franca!), a programação conta com retrospectivas imperdíveis da francesa Claire Denis e do húngaro Béla Tarr, além da Mostra Música do Underground e da Mostra Mundial, a qual traz o cinema contemporâneo realizado por uma novíssima geração de cineastas que se destacou em grandes festivais recentemente – todos os 23 filmes desta seção, de 15 países, são inéditos no Brasil e já trazem um montão de selinhos de prêmios. Entre eles, os tailandeses Hi So, de Aditya Assarat, e Eternidade, de Sivaroj Kongsakul.

Hi So é o segundo longa-metragem de Aditya, cujo debut Wonderful Town (2007) foi sensação em grandes festivais, viajando e colhendo galardões de Rotterdam a Pusan, de Las Palmas de Gran Canaria a Hong Kong, de Lisboa a San Francisco. Aditya também é criador da Pop Pictures, uma das produtoras de cinema independente mais importantes de Bangkok e que possui vínculos muito estreitos com fundos internacionais, principalmente o Hubert Bals Fund e o Pusan Asian Cinema Fund, que a apoia em diversos projetos. Como já havia comentado Apichatpong, o top do cinema tailandês hoje, esses órgãos estrangeiros são fundamentais para o desenvolvimento do cinema do país – o que não é nenhuma novidade para nós, cuja produção cinematográfica que luta por novos ares também depende de tais fundos.

Aditya, de pai tailandês e mãe norte-americana, saiu da Tailândia com 15 anos em direção aos Estados Unidos. Estudou História na New York University e depois fez um mestrado em cinema na University of Southern California. É engraçado ver o perfil de Aditya na página da Pop: “depois de formado, fiz curtas-metragens, videoclips, vídeos institucionais; ou seja, qualquer coisa que me chamassem para fazer. Mas esse período de escravidão foi muito útil para aprender a nunca desistir de nenhum trabalho, porque podemos aprender muitas coisas no dia-a-dia do set, qualquer setâ€.

Hi So tem qualquer coisa de autobiográfico – o protagonista, Ananda, estudou nos EUA e está de volta à sua terra natal, Tailândia, para tentar a carreira de ator. Ele é uma espécie de hi so, termo comum no país, utilizado para se referir a alguém da high society – o nosso playboy. Ananda emplaca fácil como galã de um filme, mas há alguns probleminhas com seu sotaque, devido aos anos que passou afastado do país. Ele faz o papel de um homem que perdeu a memória durante o tsunami e, guiado por uma mulher, percorre as ruínas de um hotel (abandonado após a tragédia) em busca de sua identidade. Aqui, Hi So se conecta de certa maneira com Wonderful Town, que tem o pós-tsunami como centro do relato. Durante as filmagens, Zoe (linda!), sua namorada norte-americana, vem visitá-lo, mas mergulha no tédio da baixa temporada e do calor escaldante enquanto Ananda está ocupado com o trabalho e jornalistas. Há diversos choques entre o casal: ela não deveria ter ido para aquele lugar estranho. Em meio à solidão, se mistura com os empregados do hotel, mesmo sem entender uma palavra deles – uma aproximação que se dá a partir da compreensão da distância que existe entre eles.

Uma elipse. O filme está pronto, o verão virou inverno, a presença de Zoe já se dissipou, May é a nova companheira do ator. O filme dá uma volta brusca mas agradável para dizer que é sobre Ananda, e não sobre a figura fugaz e frustrada de Zoe. Mas o tema da frustração segue, levando o roteiro e seu protagonista pela mão.

May é tailandesa e não fala inglês. Era uma das assistentes de produção do filme onde atuou Ananda. Vive com ele em um grande apartamento, em um edifício da mãe do ator. Essa mãe, da qual muito se fala, nunca se vê – está em Seul, nos EUA, “não seiâ€, diz Ananda. Assim como as locações do filme-dentro-do-filme, o prédio onde vive o casal tem partes destruídas pelo tsunami. O apartamento onde Ananda vivia antes está abandonado, nos andares superiores. E, como seu personagem, Ananda não consegue enxergar seu passado aí. Não consegue pertencer a esse lugar, pois lhe faltam lembranças.

Os choques com Zoe se repetem com May (nem a catarse da bela fotografia da cena da discoteca absorve os personagens em um mesmo território), ilustrando um refinado conto de encontros e desencontros cujo centro é o desenraizamento de Ananda. Imaginamos para onde vão nossas personagens femininas quando elas desaparecem, mas para onde vai Ananda? A cena final diz tudo.

Aditya tateia por não-lugares; expõe os rachas entre línguas, culturas e classes; escolhe uma estética entre os filmes de família e o negócio da grande produção. Em algumas entrevistas, sempre comenta sobre seu deslocamento e sobre o estranhamento de não pertencer a lugar nenhum pelo fato de estar conectado a dois países. Ele gostaria de mostrar essas sensações através de uma história de amor, já que os romances expõem as pessoas mais profundamente.

Por outro lado, ele queria sugerir como as fronteiras nacionais se dissolveram nos últimos tempos e como isso possibilitou outras maneiras de conectar-se com uma identidade através das tribos: há um século, por exemplo, ser tailandês seria algo definitivo, já que dificilmente se conseguiria sair do país (e mesmo da própria cidade). Hoje, devido às baixas tarifas das linhas aéreas e da internet, as identidades podem ser estabelecidas através de outros parâmetros. Aditya se absteve de eleger qualquer dessas duas visões como determinantes, mas o que fica de seu alter ego Ananda é a figura de um outsider um tanto sem rumo, característica que se reflete na narrativa. As personagens secundárias, Zoe e May, são tão fortes que atraem todos os olhos para elas – o que não significa que Ananda seja marcado pela mulher com quem está, pois ele é sempre o mesmo, mas esse mesmo pleno de indefinição que só se faz ver quando todos os outros saem do quadro.

Eternidade também é inspirado em histórias pessoais de seu diretor, Sivaroj Kongsakul. Sivaroj estudou cinema na Rajabhat Suan Sunandhai University, em Bangkok, e foi assistente de Aditya e de vários outros cineastas em ascensão na Tailândia, sendo parte da equipe de um bocado de curtas realizados no país. Eternidade, também gerado na Pop Pictures, é seu primeiro longa e levou um dos Tiger Awards do Festival de Rotterdam deste ano (os outros foram para Finisterrae, do espanhol Sergio Caballero, que também está na Mostra Mundial, e The journals of Musan, do sul-coreano Park Jung-Bum).

Em Eternidade, o protagonista Wit faz jus à crença tailandesa de que o morto, três dias depois de seu falecimento, volta ao mundo para refazer seus passos sobre lugares queridos. Wit voltou para observar todas as delícias da conquista de sua futura esposa Koi, a garota urbana que ele leva ao campo para que ela conheça sua família e aceite viver em um lugar mais tranquilo que Bangkok.

Wit, olhos da câmera, observa tudo de muito longe, com grandes panorâmicas que destacam a quietude e a brisa quente das planícies de sua família. Há muitos planos fixos que se movem bem lentamente, com delicadeza e precisão, da mesma maneira que Wit se aproxima da jovem Koi. Quando temos um primeiro plano, já estamos no fim do filme; Koi caiu nas graças de Wit, mas suas lágrimas nos remetem aos primeiros momentos da jornada do espírito que apenas assiste a esses momentos que ficaram no passado. Essa história se refere ao tempo no qual os pais de Sivaroj se encontraram e se apaixonaram, e que sua mãe sempre lhe contava tendo como ponto de partida a perda de seu amor. Há ainda uma terceira parte, a qual mostra a família de Wit depois que ele se foi, e que traz ecos da vida de Sivaroj depois da morte de seu pai.

Eternidade é metafísico e despretensioso; uma homenagem linda na forma de permissão de reviver um amor que havia sido jurado eterno. A fotografia esmaecida dos campos da juventude de Wit e Koi se repete na vida atual da família que sente a presença do espírito paterno, fortalecendo essa carga de passado que acompanha (eternamente?) quem sofreu uma perda dolorosa.

Ao contrário da urbanidade de Hi So, o filme de Sivaroj repisa as paisagens e a força das crenças as quais já tínhamos acesso devido à obra de Apichatpong. Se bem o filme de Sivaroj traz ecos do grande criador do cinema tailandês contemporâneo, reconhecemos que ele tem autonomia narrativa e configura-se como outra força estética a partir de seu modo pleno de ternura de acompanhar suas narrativas. Em outras palavras, o panorama cinematográfico local se enriquece cada vez mais e a Tailândia nos brinda boas surpresas – pena que não é sempre que podemos apreciá-las nestes outros trópicos.

As invasões bárbaras e fantásticas – “Invasión”, de Hugo Santiago

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Por: Natalia Barrenha
Invasión 3

BUENOS AIRES – “Aquilea é Buenos Aires mas é Aquilea e é a Argentina mas é Aquileaâ€, diz o diretor argentino Hugo Santiago sobre o cenário de seu primeiro longa, Invasión (1969), que em suas cenas iniciais traz o letreiro “Aquilea, 1957â€.

Invasión é uma obra de culto dentro da história do cinema argentino e participa da seção City to city do 36º Toronto International Film Festival, cuja cidade em foco é Buenos Aires. Essa seção dentro do TIFF, que se realiza de 08 a 18 de setembro, propõe uma exploração da experiência urbana através do cinema. Segundo o site do festival, a cada ano, desde 2009, eles pretendem voltar os holofotes para uma cidade onde se tem notado uma excitante nova geração de cineastas que contam histórias que só poderiam estar na paisagem mesma em que se desenrolam – na edição passada foi Istambul, e na anterior, Tel Aviv. Entre os onze filmes da programação, Invasión é um tanto intruso ao figurar somente junto a nomes do cinema argentino contemporâneo – que abarcam desde o debut do já veterano Pablo Trapero, Mundo grúa (1999), até as estreias de Santiago Mitre (El estudiante, 2011), Rodrigo Moreno (Un mundo misterioso, 2011) e Juan Minujín (Vaquero, 2011) -, mas não poderia encaixar melhor na proposta do City to city ao situar-se numa Buenos Aires disfarçada sob o nome da importante cidade do império romano invadida repetidamente pelos bárbaros até ser finalmente destruída.

Invasión surgiu em um momento de efervescência do cinema argentino, entre o ocaso da Generación del 60 (Fernando Birri, Lautaro Murúa, José Martínez Suárez , Rodolfo Kuhn, David José Kohon e Manuel Antin são alguns exemplos dessa mudança que ocorreu no plano formal, com um uso renovado da linguagem cinematográfica que transgredia os padrões clássicos, além dos novos temas e modelos narrativos, reagindo à persistência dos vícios de um cinema industrial subsidiado, prisioneiro do mercado e com uma linguagem imposta pelo estrangeiro), o apogeu do Grupo de los 5 (Alberto Fischerman, Ricardo Becher, Nestor Paternostro, Raúl de la Torre e Juan José Stagnaro, cuja única afinidade era a experiência em publicidade, da qual vinha a linguagem ligeira e sedutora de seus filmes, que também se nutria de um vanguardismo a la Andy Warhol. Utilizavam equipes reduzidas de gente jovem, material leve, e devido a uma maior organização lograram participar de um circuito menos restrito que a Generación del 60) e o nascimento do cinema militante (protagonizado pelos grupos Cine Liberación – cujos expoentes foram Fernando Solanas e Octavio Getino – e Cine de la Base – do qual podemos destacar Raymundo Gleyzer –, aproximava-se dos temas políticos e de ações ligadas à volta da democracia com uma produção clandestina e militante, motivadora de debates e sustentada pela disseminação ilegal). Hugo Santiago vinha fazer seu primeiro longa em sua terra natal após anos de experiências na França, onde havia sido assistente de Robert Bresson, e não participou de nenhuma dessas correntes que caracterizavam o cinema nacional na época.

Ele tinha a ideia de uma cidade sitiada e pretendia desenvolvê-la à la Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, até que pensou que poderia ter o aporte dos dois grandes escritores em pessoa, já que todos estavam em Buenos Aires. Como se sentia intimidado por Borges, do qual havia sido aluno de Filosofia havia vários anos, foi procurar Bioy Casares primeiro, que topou a empreitada, arrastando o jovem cineasta até a Biblioteca Nacional – onde trabalhava Borges – para fazer a proposta a este.

Bioy e Borges (que tinham dois roteiros prontos naquele momento – Los orilleros, que chegaria às telas pelas mãos de Ricardo Luna apenas em 1975, e El paraíso de los creyentes, nunca filmado) escreveram um argumento com o qual Santiago conseguiu financiamento. Bioy teve que partir para a Europa, e Santiago desenvolveu o roteiro com Borges durante meses e meses, em visitas diárias ao autor em sua sala na Biblioteca Nacional. Com medo de que Borges desistisse do trabalho no meio do caminho, Santiago lhe propôs, no primeiro dia de escrita, que ele preparasse a primeira e a última cenas – assim, se o pior ocorresse, ele poderia desenvolver o filme entre esses dois pontos. Mas Borges foi até o fim.

O filme estreou na Quinzena dos Realizadores de Cannes em 1969 e, mesmo com críticas entusiastas, passou despercebido pelas telas argentinas. Apesar de ser ambientado no passado (1957), Invasión trazia estranhos ecos do futuro: de certa maneira, prenunciava em seus personagens trágicos as desgraças da violenta ditadura militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983. Neste período, a produção foi proibida, oito rolos de negativo foram roubados, e Invasión foi se tornando uma lenda. Mesmo depois da redemocratização era muito difícil encontrar o filme, que podia ser visto somente em cópias horrorosas em VHS.

No começo dos anos 2000, Santiago e Ricardo Aronovich, diretor de fotografia de Invasión, remontaram e restauraram o clássico argentino a partir de negativos encontrados na França e em Buenos Aires. Após a árdua e custosa via-crúcis que supõe projetos desse porte, a dupla fez uma exibição especial do filme em 2002, durante o IV BAFICI (Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente). Em 2008, o MALBA (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires) lançou uma edição em DVD que traz extras muito especiais: um documentário de Alejo Moguillansky que acompanha Santiago e o crítico David Oubiña em passeios e conversas pelas locações do filme, quase quarenta anos depois da rodagem.

Depois de Invasión, Santiago voltou à França e cultivou uma prolífica carreira por lá. Fez ainda outro filme com a colaboração de Borges e Bioy Casares – Les autres, 1974 -, mas só voltaria à Argentina para filmar Las veredas de Saturno (1986), no qual trabalhou com o também escritor Juan José Saer. Neste filme, o diretor conta a história de um grupo de exilados de Aquilea. Em várias entrevistas recentes, Santiago diz que está trabalhando em um novo roteiro que se chama, provisoriamente, Adiós, e que fecharia a trilogia de sua cidade mítica.

Borges descrevia Invasión dessa maneira: “é a lenda de uma cidade, imaginária ou real, sitiada por fortes inimigos e defendida por uns poucos homens, que por acaso não são heróis. Lutam até o final, sem suspeitar que sua batalha é infinitaâ€. Invasión é um policial que vai progressivamente para o fantástico, deixando claros seus laços com a nouvelle vague e o noir norte-americano. O filme também traz um rumor de El Eternauta, a lendária HQ de Hector Germán Oesterheld (desaparecido em 1977), lançada em 1957, na qual Buenos Aires é invadida por extraterrestres e defendida por um pequeno grupo de homens (cogitou-se que haveria uma adaptação de El Eternauta para o cinema com a direção de Lucrecia Martel, mas o roteiro proposto pela diretora não foi aceito pelos produtores e familiares de Oesterheld e o projeto foi por água abaixo).

Assim como em El Eternauta, em Invasión há uma topografia inequivocamente portenha, mas ao contrário da HQ o filme não assume a capital argentina como seu lugar de ação, apesar da patente idiossincrasia argentina dos personagens (que alia preocupação política com ansiedade existencial), do tango e do mate, que permeiam toda a narrativa. Os autores transgrediram mais na geografia de Buenos Aires – como eles trabalham muito a questão da fronteira (o supra-sumo da ação se desenvolve nos limites da cidade, pressionados pelos invasores), eles colocaram montanhas (Buenos Aires está sobre uma planície) na divisa noroeste, cenário de um dos principais conflitos, cujas cenas foram filmadas em Córdoba.

Santiago olha sua Aquilea de maneira distanciada, borrada pelos negros que desbordam na fotografia, rechaçando qualquer tensão emotiva ou de suspense em um tema que poderia ser generoso nesses aspectos. Há uma quebra de expectativa constante com informações vazias que geram estranhamento – assim como a interpretação atonal e mecânica dos atores (herança do mestre Bresson) ao declamar os diálogos literários e austeros de Borges e Bioy Casares.

O silêncio onde reverberam os passos dos personagens parece pertencer a uma cidade já morta, e é alternado com  tangos intensos e diversos planos de som: convivem uma infinidade de sons in (que pertencem ao mundo da narração e têm uma fonte correspondente no plano), sons off (que pertencem ao mundo da narração mas cujas fontes não são vistas no plano) e sons over (que não pertencem ao mundo da narração). Os sons over têm papel especial na trilha sonora pois desenvolvem-se em um crescendo de volume e repetição durante todo o filme, adensando a atmosfera trágica onde o drama e o épico estão completamente ausentes. Em um interessante cruzamento de gêneros, o teremim e os gritos de corvos ainda contribuem para a verve fantástica buscada por Santiago ao incorporarem ao filme um ambiente de ficção científica. O responsável por essa trilha sonora foi Edgardo Cantón, argentino que vivia na França com Santiago, e que fazia parte do Groupe de Recherches Musicales de Pierre Schaeffer, pai da música concreta.

Nunca se expõem as razões da invasão, gerando uma angústia ao explorar com todas as forças o medo, sentimento onipresente nesses homens que esperam suas mortes de maneira consciente e resignada. Afinal, como diz a Milonga de Manuel Flores (poema de Borges musicado pelo grande tangueiro Aníbal Troilo), cantada melancolicamente por um dos personagens, “morrer é um costume que as pessoas sabem terâ€. Em Aquilea, Buenos Aires ou qualquer outro lugar.

Universo particular – Além da Estrada

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Por: Alexandre Carvalho dos Santos
alem da estrada 1

SÃO PAULO – O filme de estreia do diretor Charly Braun parece muitas coisas, menos brasileiro. Não fala português nem nos créditos, e no elenco há Guilhermina Guinle (irmã do diretor) num papel secundário e só. Os atores falam espanhol, francês e inglês, as paisagens são todas uruguaias, e é como cidadão internacional que Braun estende seu cartão de visita.

Além da Estrada é um road movie passado no Uruguai. E eu até diria que a estrada e as paisagens importam menos que tudo, não fossem tão bem filmadas e nem o que se mantém do começo ao fim da trama. Santiago (Esteban Feune de Colombi) é um rapaz argentino que viaja de carro para o interior do país vizinho, para reaver uma propriedade da sua família. Logo na partida, oferece carona a Juliette (Jill Mulleady), uma garota belga que pretende, sem tanta convicção assim, encontrar um antigo caso – e, se tudo der certo, ficar por onde ele estiver. Ela não fala o espanhol de Santiago, nem ele fala francês, de modo que os dois se arrumam com uma terceira língua, o inglês. O que poderia ser só uma conveniência do roteiro acaba sendo um achado, porque, se a língua não lhes pertence, a comunicação entre os dois funciona mais pelas atitudes que pelas palavras. O que é bem-vindo quando o assunto é cinema.

Santiago é tão inseguro quanto a bel(g)a, e isso é o que aproxima a produção de tantos outros road movies: personagens perdidos na estrada, e a metáfora da procura do caminho, de um caminho possível. A importância do acaso nos destinos desses personagens lembra o bonito Exílios (2004), de Tony Gatlif. Mas talvez seja a proximidade do diretor com o tema (passava as férias da infância no Uruguai) o que confere a Além da Estrada uma intimidade e um frescor envolventes, que enriquecem cada cena. A passagem em que o casal participa de uma festa na casa de Hugo, o padrinho-conselheiro-artista-porra-louca de Santiago, é de cenas escuras como as imagens noturnas, internas, dos filmes super-8 de trinta e tantos anos atrás. A pobreza de matizes do registro digital é explorada aqui como recurso artístico; ferramenta de memória imediatamente identificável por quem foi criança na época.

A estética do filme caseiro, de resolução de Polaroid, prevalece. Em outros filmes, quase sempre a câmera trêmula, descuidada, me aborrece mais que me agrada. Não é o caso desta vez. Porque Charly Braun filma seus personagens como quem filma os irmãos numa festa dos primos, ou brincando na fazenda, ou esperando o tempo passar. Os cortes não são óbvios, têm uma ponta de nouvelle vague. Como quando Juliette, de bobeira pela propriedade de Hugo, estanca de repente diante de cavalos que olham na direção da câmera – há um risco e um temor sugeridos, mas apenas por um segundo. A sequência já mostra a garota em harmonia com esse meio, quase desconhecido, quase ameaçador: ela pula entre as ovelhas, caminha entre elas e sai rapidamente, como se só quisesse reafirmar uma segurança recente.

E ainda esse carinho pelas imagens do interior uruguaio, por seus figurantes (protagonistas na vida real), permite que o filme tenha sequências puramente documentais sem que a poesia da narrativa perca o embalo. Pelo contrário, personagens criados e reais, ou quase, têm uma interação cheia de fluidez, sejam os figurantes anônimos do campo ou uma celebridade como a modelo Naomi Campbell.

Um comentário mais particular desse crítico – licença pleonástica, já que toda crítica de cinema é absolutamente particular, fingindo-se de universal: acho que um bocado de filmes dura muito mais do que seus realizadores têm a dizer, o que acaba afundando a avaliação geral de obras que seriam diamantes com uma edição menos indulgente. E quando me vi diante da cena final de Além da Estrada, torci muito para que o filme terminasse ali. Não porque não achasse que o diretor não teria fôlego para mais; mas porque era a conclusão e o tempo precisos, pelo menos para mim – e porque a cena é linda. Pensei: “se terminar agora, vai ser perfeitoâ€. E foi.

* * *

Além da Estrada (Por El Camino)

Direção: Charly Braun

Com: Esteban Feune de Colombi (Santiago) e Jill Mulleady (Juliette).

Avaliação: ÓTIMO.

Story Touch – o roteiro escrito e visto

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Por: Tayla Tzirulnik
Picture 1

A revista BETA conversou com o diretor Paulo Morelli, criador do software Story Touch (lançado este ano).

De onde surgiu a ideia?

Em 2008, eu estava desenvolvendo vários roteiros ao mesmo tempo (com um grupo de roteiristas), e sentia necessidade de “ver” o roteiro em uma única página. Queria entender qual era o arco dramático das estórias, onde elas haviam começado e onde terminavam, o que havia mudado. Olhando agora para o Story Touch, vejo que ele de fato faz exatamente isso.

Qual é o objetivo do software?

Ajudar o desenvolvimento do roteiro no Brasil. Recentemente, vários bons roteiristas apareceram, mas ainda acho que podemos dar um salto de qualidade nos nossos roteiros. Espero que o ST possa ajudar nesse sentido.

Já existem programas conceituados no mercado, como o Final Draft. Qual o diferencial do novo software?

Os outros programas do mercado são apenas editores de texto mais sofisticados. Não existe nenhum software que faça o que o Story Touch faz. Ele é único no mercado. O Story touch tem 4 grandes funções:

1) escrever (segundo os padrões da indústria);

2) navegar facilmente pelo roteiro usando um timeline (a cada lugar que se clica, o roteiro vai para aquele ponto), medir o tamanho de cenas ou grupo de cenas, mover cenas pelo timeline, etc.

3) Fazer análises de dramaturgia, como lançar PONTOS DE VIRADA, DILEMAS, CLIMAX, OBJETIVOS DOS PERSONAGENS, SET UP/PAY OFF, ACOMPANHAR PERSONAGENS, ACOMPANHAR TRAJETÓRIAS (mais amplo do que apenas personagens, pode-se acompanhar conceitos, por exemplo), SEGUIR EMOÇÕES E MUDANÇAS DE VALORES, dizer qual o TOM E O RITMO DAS CENAS, entre outras.

4) Permite a troca de comentários entre colaboradores do roteiro e do filme em si. O Story Touch pode ser útil para que toda a equipe criativa “veja” o mesmo filme.

Quem confeccionou o software?

Contratei a empresa Agilbits, que vem deselvolvendo o código durante os últimos 3 anos.

Por que existem 4 versões distintas?

Uma versão é grátis, para que as pessoas experimentem o Story Touch. As outras versões trazem ferramentas cada vez mais profissionais, não só para o escritor, mas para o resto da equipe, como o diretor e o produtor, por exemplo.

Roteiristas e diretores testaram o software?

Roteiristas como Thiago Dottori, Teo Poppovic no Brasil e Matt Hansen no Canadá, já escreveram roteiros usando o Story Touch. Já há diretores usando, tanto na O2 Filmes como no mercado.

Para comprar ou baixar a versão gratuita acesse www.storytouch.com

Mi Buenos Aires querido – Entrevista com Gustavo Taretto, diretor de Medianeras

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Por: Natalia Barrenha
Onde está o Wally

Por Natalia Barrenha & Aline Duvoisin

Câmera e edição por Gustavo Agüero

BUENOS AIRES – 20 de julho foi um dos dias mais frios do ano em Buenos Aires. Mesmo assim, Gustavo Agüero saiu com sua moto e sua câmera lá de San Justo, zona oeste da Grande Buenos Aires, passou em Congresso, no centro da capital, para buscar Aline, e foi até Palermo Hollywood, onde Natalia, que vinha de Palermo Viejo, os esperava, na frente do edifício de Gustavo Taretto, cuja campainha não funcionava.

Entramos no apartamento de Taretto, diretor de Medianeras – Buenos Aires na era do amor virtual, onde havia sido filmada a cena em que Martín, um dos personagens do filme, tem uma consulta com seu psicólogo. Sentamos no sofá que havia servido de divã, e conversamos quase duas horas com o cineasta, já que depois ele iria se encontrar com amigos para uma pizza – 20 de julho é dia do amigo, data efusivamente comemorada na cidade.

Até agora, Medianeras – baseado um curta anterior de Taretto, também chamado Medianeras (2005) - só estreou na França (onde está nos cinemas há três meses) e no Brasil, quando entrou em cartaz em 02 de setembro. Entretanto, o filme tem estreia prevista em 30 países, e já passeou por diversos festivais no mundo todo, nos quais colheu um montão de prêmios – inclusive no 39º Festival de Cinema de Gramado, de onde saiu com os kikitos de Melhor Filme, Melhor Diretor (galardão que Taretto compartilhou com o mexicano Sebastián Hiriart, de A tiro de pedra) e o Prêmio do Júri Popular.

Medianeras é comédia romântica cool que conta a pré-história de um amor – Martín e Mariana, encontrando-se e desencontrando-se no mesmo quarteirão em Buenos Aires – a qual não é apenas cenário, mas protagonista do filme. Taretto trata com calidez seus personagens patéticos e por vezes azedos, assim como Wes Anderson e Woody Allen, cineastas que o diretor admira.

Nesta entrevista, Gustavo Taretto nos conta mais sobre o filme e Buenos Aires.

Você pode dar uma olhadinha no site oficial de Medianeras aqui.

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