Traveco família – Elvis & Madona
SÃO PAULO – A sinopse e o trailer dão toda a pinta de que Elvis & Madona (assim mesmo, com um “n” só) vá ser um melodrama com pinceladas de comédia, uma tentativa tupi de produzir algo nos calcanhares de Almodóvar. Mas, se o diretor espanhol é referência confessa, o filme não confirma a pré-impressão da natureza dramática. Ao contrário, é uma comédia, leve até, em que o melodrama surge como elemento de conflito e de encontro, mas completamente em segundo plano. Num contexto de despretensão e baixo orçamento, combinados com temas fortes, a opção pela leveza no tom desarma as apreensões do espectador. E transforma o pé atrás em simpatia espontânea e até surpresa.
O argumento tem a inverossimilhança típica do cinema almodovariano: lésbica e travesti se apaixonam e têm de lidar com as consequências dessa união improvável. Elvis (Simone Spoladore) é a garota, uma entregadora de pizza com talento para a fotografia e uma relação difícil com a mãe repressora. Madona (Igor Cotrim) é o traveco cabeleireiro; tem um pé na marginalidade (no sexo pago, no cinema pornô, na aproximação com o bandido João Tripé – Sérgio Bezerra, ótimo), mas guarda anseios de ser diva.
Interessante notar que não é o sentimento de inadequação que os aproxima. É só o desejo puro, o tesão, que parte mais de Elvis, atraída pela mulher que há em Madona. Esta escolha deixa claro que o filme não levanta bandeiras. É comédia romântica e ponto. Parte de um dos motivos clássicos da comédia, a inversão sexual, que já rendeu de caricaturas grosseiras a obras-primas de humor sofisticado, como Quanto Mais Quente Melhor e A Gaiola das Loucas. O filme de Marcelo Laffitte não está nesses dois extremos, mas fica na parte de cima, entregando tudo o que sua ambição promete.
Igor Cotrim, em especial, se dá muito bem com o personagem. Seu perfil de homem-show, que ficou notório durante sua participação no reality “A Fazenda”, faz baixar o santo (a santa) de um travesti tipo “bicha deslumbrada”. Que não é sensual nem feminino – nem poderia, com o físico bombado do ator –, mas é muito engraçado o tempo todo. Seu personagem não é a paródia agressiva dos humorísticos da TV, mas ainda é um traveco para consumo familiar. Terá a simpatia da vovó mais conservadora, porque ri de si mesmo e faz rir, com a ajuda de diálogos cheios de gírias e duplo sentido. Seria uma boneca apresentadora de programa infantil, se alguém desse chance.
Por tudo isso, é até natural que a atuação de Simone Spoladore chame menos atenção. E a beleza da atriz fica no caminho de quem espera ver uma lésbica motoqueira, ativa, masculinizada. No entanto, há de se notar os detalhes de sua interpretação sutil – que chega a convencer que a mulher na casa dos 30 é uma garota de, no mínimo, dez anos a menos. Simone acerta na dose ao mostrar as imperfeições de Elvis, porque não busca um glamour que sua personagem não tem. Elvis é o apelido de Elvira, uma moça imatura, mais intuitiva que inteligente, e até pouco articulada. Não tem nada da alta cultura da lesbian chic – como provam as rimas fracas da cena de cantoria bêbada, na mesa de um bar.
É outro acerto geral do filme, conseguir muito de personagens que não são brilhantes, nem especialmente atraentes. Madona não é um travesti desses que recebem convites de revistas masculinas. E seus shows musicais são lamentáveis. Elvis é insegura e do tipo que desiste fácil. Esse retrato, mais fiel à mediocridade da vida, é o que o filme tem de real, dentro de uma proposta de soluções artificiais que tanto servem ao gênero da comédia. O bom equilíbrio entre realidade e fantasia dá a Elvis e Madona a sustentação para lidar com suas angústias e a probabilidade de que as coisas não se acertem no final. E não é assim sempre na vida?
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Elvis & Madona
Direção: Marcelo Laffitte
Com: Igor Cotrim (Madona), Simone Spoladore (Elvis) e Sérgio Bezerra (João Tripé).
Avaliação: BOM.





Improvável como União? Talvez, mas como Relação, pelo q tenho visto, não é incomum.
Viva a Diversidade!