Sem hipocrisia – Família Vende Tudo
SÃO PAULO – Fico pensando nas razões de, nos últimos meses, ter tido surpresas positivas com alguns filmes brasileiros. Não me debruço nisso pelo fato de serem bons, mas pela surpresa. Depois de mais de 20 anos de cinefilia, você mais ou menos sabe o que tem chance de te agradar. Ultimamente, para mim, tem sido diferente com os nacionais. Às vezes, são três ou quatro achados dentro de um filme que prometia o pior. Às vezes, a coisa vai além e me obriga a concluir, “Caramba, é bom…”, quando tinha me preparado para uma hora e meia de amadorismo, pretensão descabida ou arremedo da televisão. Há a hipótese de que a enxurrada de filmes inexpressivos tenha me acostumado mal. Mas também pode ser que os filmes não sejam bem vendidos, e os trailers e todo o conjunto de referências passem uma ideia errada do que eles são. Acho que valem as duas hipóteses.
Veja o caso de Família Vende Tudo, de Alain Fresnot. O título já tem jeitão de programa humorístico da Globo, de fim de noite de domingo, para recuperar o espírito depois que o “Fantástico” mata todas as nossas esperanças. Aí há o elenco global: Lima Duarte, Vera Holtz, Caco Ciocler, Luana Piovani… (nada contra os atores, mas a escalação remete a filmes inodoros dirigidos por Daniel Filho, Marcos Paulo…). E o trailer ainda destaca a participação do cantor Latino. Se chamar o Gugu e o Renato Aragão, vira um filme da Xuxa.
Mas eis que, por motivos profissionais, lá vou eu para o teste de paciência. E é quando a mágica acontece. Família Vende Tudo é uma ótima comédia de humor negro, o elenco está afinado e o filme vai além das risadas, com uma crítica social que aponta em mais de uma direção. Ah, e o Latino faz uma ponta de 30 segundos, se muito, no filme. Pouco mais do que aparece no trailer.
O tema principal é a falta de escrúpulos. Família que sobrevive de contrabando do Paraguai e venda de produtos piratas está em crise e precisa saldar uma dívida com um marginal. Na falta de ideia melhor, os pais (Lima e Vera) resolvem botar a filha Lindinha (Marisol Ribeiro) para dar o “golpe da barriga” em um artista famoso. Que, no caso, é Ivan (Caco Ciocler), o rei do “xique”, um ritmo entre o sertanejo e a lambada, se é que dá para conceber algo tão assustador…
A atuação de Ciocler merece um parágrafo exclusivo. O ator tem um trabalho minucioso na interpretação do sertanejo bad boy, de educação primária, querendo aproveitar o que for possível enquanto a onda do “xique” não fica para trás. Expressa uma empáfia de quem pode tudo, mas o recheio é de ingenuidade e deslumbramento, típicos dos jogadores mais badalados do futebol – em comum, a consciência de que vai passar rápido. Todos os seus deslizes estão às claras na história, em que o bom humor ameniza um retrato cruel dos personagens.
Esse despudor nos diálogos e intenções é o grande achado do filme. Os pais de Lindinha não escondem de ninguém o “golpe”, e a vizinhança até vibra com eles quando a gravidez é confirmada. A moça, adolescente, recebe instruções de como aumentar as chances da fecundação como se ouvisse orientações sobre as compras no mercado. Mas não lamente pela exploração da menina. Como se verá no desenrolar da trama, a ninfeta também não tem nada de vítima. Ninguém presta em Família Vende Tudo.
Essa nudez total das hipocrisias dá ao filme de Fresnot algo do surrealismo dos filmes de Buñuel. Se muitas comédias precisam se afastar do naturalismo para a criação do absurdo, esta traz um elemento novo a essa opção, pois o que tem de artificial é tão-somente um filtro para peneirar as aparências. Como se o diretor tivesse a ideia inaceitável e antissocial de dizer: “A partir de agora, ninguém pode mentir.”
No filme, funciona. Na vida, seria o fim do mundo.
* * *
Família Vende Tudo
Direção: Alain Fresnot
Com: Caco Ciocler (Ivan), Marisol Ribeiro (Lindinha) e Lima Duarte (Ariclenes).
Avaliação: BOM.



Redes Sociais