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Balada Triste de Trompeta – Quando o cinema reescreve a História

June 28, 2011 Crítica, Edição Online 1 Comentário
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Por: Bruno Carmelo
Balada Triste

Paris – Há menos de dois anos, saía no cinema Bastardos Inglórios, filme dirigido por Quentin Tarantino. Comentado principalmente pelas suas atuações e pelo uso da linguagem pop cara ao diretor, ele foi raramente mencionado pela particularidade do projeto. De fato, este filme faz um acerto de contas fictício com o nazismo, matando Hitler numa sala de cinema, sob tiros, fogo e explosões. Do suicídio no bunker, o líder nazista é vingado para o prazer de uma ficção americana.

Balada Triste de Trompeta faz o mesmo com a história espanhola. Filme de ação repleto de efeitos especiais, ações umas mais espetaculares (no sentido estrito) que as outras e reviravoltas mil, este projeto inclui, no meio do embate entre seus dois palhaços assassinos, o cenário da ditadura de Franco. Numa cena, o palhaço protagonista se aproxima, e diante de um discurso curiosamente humanista e caridoso do ditador, o palhaço morde-lhe a mão com força, enquanto a câmera, instalada numa grua, sobe aos céus num movimento prodigioso, indicando a importância e o caráter transcendental desta ação.

O que ambos os projetos fazem, em outras palavras, é reescrever a História. Não que isso seja completamente inovador, mas antes o cinema era repleto de filmes que pretendiam trazer correções históricas, honrar tal ou tal grupo esquecido pelos livros, e representar assim uma nova “verdade”. Esta forma de discurso era raramente um documentário assumido, mas uma ficção com pretensões de documento, que pretendia convencer pelo realismo de suas palavras e de suas imagens.

Balada Triste de Trompeta, como Bastardos Inglórios, não tentam convencer ninguém. A História está presente como fantasma, fetiche, fora de contexto. Não se corrige dado algum: apropria-se de fatos conhecidos por seu potencial dramático, como atmosfera de suspense criada durante os séculos no imaginário coletivo de um povo. Para os espanhóis, na época em que o cinema de horror está saturado de crianças nefastas, de monstros, psicopatas, vampiros e espíritos, a grande referência assustadora é mesmo Franco.

A História torna-se um acessório da ficção, na qual os elementos fatuais podem ser deslocados no tempo e no espaço com um sentimento de potência divina. Este cinema (pop, contemporâneo, com um orçamento significativo) pode tudo, ele faz o que quer e não deve nada à memória nem à ética de nação nenhuma. Pode-se falar em “filme baseado em fatos reais”? Dificilmente. Franco integra o terreno da ficção, misturando sua existência à realidade dos palhaços assassinos e do circo de horrores orquestrado por efeitos especiais de alta tecnologia.

Certamente, muitos falam em alegoria, e com razão. O fato de se apresentar o franquismo num cenário de circo, sem humanismo, com os personagens desfigurados e a ausência de moral pode fazer referência ao período. Mas estas imagens também poderiam representar praticamente qualquer contesto de exploração humana, ou de luta de classes na História. Não há particularidade local nesta trama que poderia lembrar tanto o comunismo quanto o nazismo, o fascismo e diversas ditaduras, antigas ou atuais. Por fim, o mais curioso é ver este roteiro evocar a Segunda Guerra Mundial de maneira essencialmente apolítica – como também era o caso dos Bastardos Inglórios.

Entra em cena portanto uma espécie de História-gadget, História sem memória. Ocupam as imagens estes dois palhaços desfigurados e amorais (como dois Coringas num filme sem Batman), um pequeno homem-bala, uma elefanta ciumenta, uma loira gostosa e submissa, explosões, homens que sobrevivem sozinhos na selva, lutas sobre uma cruz de Igreja de centenas de metros de altura… e Franco. Talvez tudo fique mais claro quando, nos créditos finais, vê-se “Franco” lá no fim da lista, depois, por exemplo, do dono do circo. Nestes projetos pós-modernos, a História está sempre presente, mas como coadjuvante. A nação apresenta um potencial dramático equivalente ao de qualquer aventura circense.

Balada Triste de Trompeta (2010). Filme espanhol-francês dirigido por Álex de la Iglesia. Com Carlos Arece (Javier), Antonio de la Torre (Sergio), Carolina Bang (Natalia), Santiago Segura (Pai), Sancho Gracia (Coronel Salcedo).

Atualmente temos "1 comentário" nesse artigo:

  1. [...] AIRES – Ontem, chegou ao Brasil o filme espanhol Balada de amor e ódio (Balada triste de trompeta, 2010), de Álex de la Iglesia, que levou os prêmios de Melhor Diretor [...]

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