Allen no país dos artistas – Midnight in Paris
Paris – Desde o início das filmagens de Midnight in Paris (“Meia-noite em Paris” em tradução livre), percebeu-se uma atenção particular tanto de Woody Allen quanto dos produtores em revelar poucas informações sobre a intriga. Até as vésperas do Festival de Cannes 2011, os jornais franceses se desculpavam por não poder divulgar “o que se passa com Owen Wilson durante a noite”. Pois bem, desde a noite de estreia do festival, e simultaneamente nos cinemas franceses, o tal mistério foi revelado.
A filmografia do diretor devia caminhar numa monotonia atroz para que tal elemento fosse escondido: a fantasia, ou mais especificamente, o “realismo poético”. Como na Rosa Púrpura do Cairo, ou em Todos Dizem Eu Te Amo, também ambientado na capital francesa, Allen retoma a “magia” fictícia, talvez o elemento mais inteligente para se retratar as ruas de Paris sem ser acusado de fazer uma coleção de estereótipos de intelectualidade e romantismo. Ou seja, todos os clichês de fato estão lá, mas eles são paródicos e não pretendem representar a cidade de maneira verossímil.
Talvez por esta razão os críticos acolheram o filme de maneira muito positiva, defendendo esta reação seja por aspectos afetivos (o filme “é uma declaração de amor à Paris”, dizem muitos”), por aspectos cinéfilos (os fãs dos filmes de Allen dos anos 1970-80 puderam enfim reencontrar alguns dos elementos apreciados na filmografia antiga) ou mesmo por outros aspectos machistas e/ou extra-fílmicos (“Léa Seydoux é linda”, “Carla Bruni não é tão ruim assim”, lia-se nas imprensas francesa e brasileira).
Devidamente protegido das acusações de oportunismo e de panfleto turístico (críticas frequentes à Vicky Cristina Barcelona), Allen retrata duas Paris, uma de dia – a cidade chata dos turistas ricos, com museus, jardins e outros passeios simbolicamente importantes – e a Paris noturna, em que carruagens passam pelas ruas de paralelepípedos e Gil, o protagonista, pode encontrar ao mesmo tempo Pablo Picasso, Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Ao invés da torre Eiffel e do Arco do Triunfo, os monumentos noturnos são humanos e interativos. Mais do que isso, são os escritores que vêm ao nosso protagonista, que o chamam e que o envolvem neste novo mundo. Entre Cinderela (o toque de meia-noite, a carruagem transformada) e Alice no País das Maravilhas (“Você vai chegar atrasado, venha!” – desconhecidos gritam ao americano), o filme propõe uma viagem pelo sonho da “cidade das luzes”.
Pode-se lamentar que o roteiro sofra um ataque de didatismo rumo ao fim, e os personagens simplesmente resumam o que se “queria dizer até então”, com Gil fazendo um longo discurso sobre a nostalgia e o fato que sempre se acredita que as épocas anteriores são melhores que a atual – algo que, de certa maneira, representa muito bem a cinefilia nostálgica e autoral do festival de Cannes, do qual ele foi o filme de abertura. Este elemento já estava mais do que claro, mas desde Melinda e Melinda, mais ou menos, Allen tem resumido todas suas narrativas num ensinamento moral simples, otimista e binário (o bem contra o mal, o drama contra a comédia, o antigo contra o moderno e também o dia contra a noite neste caso aqui).
Talvez seja apenas no final que se perceba a importância da longa sequência de abertura, com planos rápidos de todos os cartões postais da cidade e jazz à la francesa, tanto de dia quanto de noite. A imagem parece afirmar: “Para quem esperava ver imagens turísticas, aqui estão. Agora passemos a outra coisa”. Por fim, Midnight in Paris possui elementos para agradar tanto os amantes da Paris-dia quanto da Paris-noite, ou seja, tanto do turista consumidor de monumentos e bolsas Dior quanto o turista sedento por ver a cidade onde já passaram Gertrude Stein, Degas e Matisse.
Midnight in Paris (2011). Filme americano-espanhol dirigido por Woody Allen. Com Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Kathy Bates, Michael Sheen, Adrien Brody, Carla Bruni-Sarkozy, Léa Seydoux, Gad Elmaleh.



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