BETA – the end…

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Na primeira semana de outubro a TZ Editora publicou a última edição da revista BETA. Desde 2008 a BETA vem informando e discutindo o cinema brasileiro e internacional na versão impressa e trimestral e online. A TZ Editora decidiu frear suas atividades para elaborar um novo formato da revista que …

Sem hipocrisia – Família Vende Tudo

Crítica

SÃO PAULO – Fico pensando nas razões de, nos últimos meses, ter tido surpresas positivas com alguns filmes brasileiros. Não me debruço nisso pelo fato de serem bons, mas pela surpresa. Depois de mais de 20 anos de cinefilia, você mais ou menos sabe o que tem chance de te …

Felicidade clandestina – “El premioâ€, de Paula Markovitch

Crítica

BUENOS AIRES – Paula Markovitch assume sem rodeios que El premio, seu primeiro longa-metragem, é autobiográfico sim: o filme nasceu a partir das vívidas lembranças que Paula trazia da infância, durante os anos de chumbo da Argentina. Mas El premio não é uma produção do país vizinho, apesar da diretora, …

Traveco família – Elvis & Madona

Crítica

SÃO PAULO – A sinopse e o trailer dão toda a pinta de que Elvis & Madona (assim mesmo, com um “n†só) vá ser um melodrama com pinceladas de comédia, uma tentativa tupi de produzir algo nos calcanhares de Almodóvar. Mas, se o diretor espanhol é referência confessa, o …

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BETA – the end…

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Por: Tayla Tzirulnik
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Na primeira semana de outubro a TZ Editora publicou a última edição da revista BETA. Desde 2008 a BETA vem informando e discutindo o cinema brasileiro e internacional na versão impressa e trimestral e online. A TZ Editora decidiu frear suas atividades para elaborar um novo formato da revista que possibilite vida longa ao cinema impresso e digital que publicamos. Em breve, teremos boas notícias!

Enquanto isso… a TZ Editora seguirá com o canal www.revistabeta.com.br postando novidades no blog e deixará disponível, gratuitamente, as versões digitais de todos os números já publicados. A TZ Editora seguirá publicando livros e dvds voltados para a sétima arte.

Até breve!

Sem hipocrisia – Família Vende Tudo

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Por: Alexandre Carvalho dos Santos
família 3

SÃO PAULO – Fico pensando nas razões de, nos últimos meses, ter tido surpresas positivas com alguns filmes brasileiros. Não me debruço nisso pelo fato de serem bons, mas pela surpresa. Depois de mais de 20 anos de cinefilia, você mais ou menos sabe o que tem chance de te agradar. Ultimamente, para mim, tem sido diferente com os nacionais. Às vezes, são três ou quatro achados dentro de um filme que prometia o pior. Às vezes, a coisa vai além e me obriga a concluir, “Caramba, é bom…â€, quando tinha me preparado para uma hora e meia de amadorismo, pretensão descabida ou arremedo da televisão. Há a hipótese de que a enxurrada de filmes inexpressivos tenha me acostumado mal. Mas também pode ser que os filmes não sejam bem vendidos, e os trailers e todo o conjunto de referências passem uma ideia errada do que eles são. Acho que valem as duas hipóteses.

Veja o caso de Família Vende Tudo, de Alain Fresnot. O título já tem jeitão de programa humorístico da Globo, de fim de noite de domingo, para recuperar o espírito depois que o “Fantástico†mata todas as nossas esperanças. Aí há o elenco global: Lima Duarte, Vera Holtz, Caco Ciocler, Luana Piovani… (nada contra os atores, mas a escalação remete a filmes inodoros dirigidos por Daniel Filho, Marcos Paulo…). E o trailer ainda destaca a participação do cantor Latino. Se chamar o Gugu e o Renato Aragão, vira um filme da Xuxa.

Mas eis que, por motivos profissionais, lá vou eu para o teste de paciência. E é quando a mágica acontece. Família Vende Tudo é uma ótima comédia de humor negro, o elenco está afinado e o filme vai além das risadas, com uma crítica social que aponta em mais de uma direção. Ah, e o Latino faz uma ponta de 30 segundos, se muito, no filme. Pouco mais do que aparece no trailer.

O tema principal é a falta de escrúpulos. Família que sobrevive de contrabando do Paraguai e venda de produtos piratas está em crise e precisa saldar uma dívida com um marginal. Na falta de ideia melhor, os pais (Lima e Vera) resolvem botar a filha Lindinha (Marisol Ribeiro) para dar o “golpe da barriga†em um artista famoso. Que, no caso, é Ivan (Caco Ciocler), o rei do “xique”, um ritmo entre o sertanejo e a lambada, se é que dá para conceber algo tão assustador…

A atuação de Ciocler merece um parágrafo exclusivo. O ator tem um trabalho minucioso na interpretação do sertanejo bad boy, de educação primária, querendo aproveitar o que for possível enquanto a onda do “xique” não fica para trás. Expressa uma empáfia de quem pode tudo, mas o recheio é de ingenuidade e deslumbramento, típicos dos jogadores mais badalados do futebol – em comum, a consciência de que vai passar rápido. Todos os seus deslizes estão às claras na história, em que o bom humor ameniza um retrato cruel dos personagens.  

Esse despudor nos diálogos e intenções é o grande achado do filme. Os pais de Lindinha não escondem de ninguém o “golpeâ€, e a vizinhança até vibra com eles quando a gravidez é confirmada. A moça, adolescente, recebe instruções de como aumentar as chances da fecundação como se ouvisse orientações sobre as compras no mercado. Mas não lamente pela exploração da menina. Como se verá no desenrolar da trama, a ninfeta também não tem nada de vítima. Ninguém presta em Família Vende Tudo.

Essa nudez total das hipocrisias dá ao filme de Fresnot algo do surrealismo dos filmes de Buñuel. Se muitas comédias precisam se afastar do naturalismo para a criação do absurdo, esta traz um elemento novo a essa opção, pois o que tem de artificial é tão-somente um filtro para peneirar as aparências.  Como se o diretor tivesse a ideia inaceitável e antissocial de dizer: “A partir de agora, ninguém pode mentir.â€

No filme, funciona. Na vida, seria o fim do mundo.

* * *

Família Vende Tudo

Direção: Alain Fresnot

Com: Caco Ciocler (Ivan), Marisol Ribeiro (Lindinha) e Lima Duarte (Ariclenes).

Avaliação: BOM.

Felicidade clandestina – “El premioâ€, de Paula Markovitch

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Por: Natalia Barrenha
El premio (4)

BUENOS AIRES – Paula Markovitch assume sem rodeios que El premio, seu primeiro longa-metragem, é autobiográfico sim: o filme nasceu a partir das vívidas lembranças que Paula trazia da infância, durante os anos de chumbo da Argentina. Mas El premio não é uma produção do país vizinho, apesar da diretora, dos atores, da locação e da trama serem argentinos: a produção tem nacionalidade quádrupla, na qual constam México, Polônia, Alemanha e França.

Paula vive no México há alguns anos, onde se destacou como co-roteirista dos hits adolescentes de Fernando Eimbcke – Temporada de patos (2004) e Lago Tahoe (2008). Tentou financiamento na Argentina por dois anos, sem topar com um produtor com quem pudesse entrar em acordo. Alemanha e França participam do filme através de fundos de festivais (Fonds Sud Cinéma, de Cannes, e World Cinema Fund, de Berlim); Polônia e México através de seus institutos de cinema. Em muitos festivais dos quais participou desde sua première em Berlim, em fevereiro deste ano (de onde saiu com dois Ursos de Prata: direção de fotografia, de Wojciech Staron, e desenho de produção, de Barbara Alvarez), Paula repete incansavelmente que Polônia e México compreenderam a história de El premio como algo que transcende fronteiras; uma história humana acima de tudo.

El premio enquadra Cecilia, sete anos, sem abandoná-la durante as quase duas horas de filme, seguindo-a em sua sensação de estar perdida no mundo e olhando o dia-a-dia através de seus olhos confusos. Ela vive com a mãe em uma precária casa em frente a uma praia perpetuamente cinza. Não há letreiros indicando nem quando ou onde se passa ação, mas não demoramos a entender que essas duas pessoas não pertencem a esse lugar. E um pouco mais tarde nos situamos na época do Proceso, como ficou conhecido o período 1976 – 1983, quando os militares ocuparam o poder na Argentina.

Sim, El premio não tem fronteiras, principalmente na América Latina e sua História cheia de procesos. Kamchatka (Marcelo Piñeyro, 2002, Argentina), Machuca (Andrés Wood, 2004, Chile) e O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hamburger, 2006, Brasil) são outros filmes que já haviam abordado esses complicados Estados policiais por meio da incompreensão da infância.

Ceci intui a situação, mas não a entende. Não entende porque está nessa praia gelada onde não se pode patinar; também não entende porque está longe do pai, da família, e de tudo que lhe é familiar. Mesmo assim, não deixa de rir das menores coisas e diverte-se à sua maneira, proporcionando ao contexto tenso a leveza que só uma criança poderia dar.

Exausta com o tédio de Ceci, sua mãe permite que ela vá a uma escola do povoado sob ordens estritas de viver a mentira de que seu pai vende cortinas, sua mãe é dona de casa. Todos acreditam, e ela ri e ri porque pôde mentir com sucesso sem ser repreendida.

O filme explora a sobrevivência em torno a uma mentira complicada, e o que isso significa em chave íntima. É o regime político invadindo a privacidade, a água que invade a cabana, o vento que varre a praia (que mais parece um deserto) permanentemente. Não adianta fechar a janela, a porta; o vento estará ali, à espreita. Todo o entorno é desolador, inóspito, e o mar e o vento são hostis e ameaçadores como o contexto que se vive. O vento está presente o tempo todo através do som que atravessa o filme – não podemos fechar os ouvidos e não escutar, da mesma maneira que em El premio não se pode fugir do vento.

Além da casa e da praia, a escola é outro cenário do filme. É interessante observar como Markovitch construiu esse microcosmo, que rende as melhores sequências de El premio com a observação dos métodos fascistas utilizados pela professora Rosita, e como ela os conduz com luvas de pelica. É na escola que Ceci não resiste ao desejo natural de ser reconhecida: justamente quando nada mais, nada menos que o Exército faz uma visita à instituição servindo chocolate quente para divulgar um concurso de redação – no qual Ceci ganha o prêmio do título. Ela quer o prêmio, dado, veja só, pelos militares.

O prêmio desencadeia em Ceci um sentimento pleno, mas que depois cai na dúvida, alimentado pelo horror que a menina sente frente às formalidades truculentas dos homens de farda. Mais do que nunca, Cecilia é tomada pelo desamparo.

Markovitch falou diversas vezes do desamparo que ela sentia na idade de Cecilia, sensação que a guiou no desenvolvimento do trabalho e que está completamente plasmada na atmosfera do filme – principalmente através do formato cinemascope, e também pela fotografia desbotada de Staron, que privilegia a luz tênue do inverno cru e os céus sempre carregados, escuros.

El premio foi exibido no Brasil no 6º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, onde foi eleito Melhor Filme. Para quem perdeu, o filme estará no 5º Cine BH e também no Festival do Rio.

Traveco família – Elvis & Madona

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Por: Alexandre Carvalho dos Santos
elvis e madona 3

SÃO PAULO – A sinopse e o trailer dão toda a pinta de que Elvis & Madona (assim mesmo, com um “n†só) vá ser um melodrama com pinceladas de comédia, uma tentativa tupi de produzir algo nos calcanhares de Almodóvar. Mas, se o diretor espanhol é referência confessa, o filme não confirma a pré-impressão da natureza dramática. Ao contrário, é uma comédia, leve até, em que o melodrama surge como elemento de conflito e de encontro, mas completamente em segundo plano. Num contexto de despretensão e baixo orçamento, combinados com temas fortes, a opção pela leveza no tom desarma as apreensões do espectador. E transforma o pé atrás em simpatia espontânea e até surpresa.

O argumento tem a inverossimilhança típica do cinema almodovariano: lésbica e travesti se apaixonam e têm de lidar com as consequências dessa união improvável. Elvis (Simone Spoladore) é a garota, uma entregadora de pizza com talento para a fotografia e uma relação difícil com a mãe repressora. Madona (Igor Cotrim) é o traveco cabeleireiro; tem um pé na marginalidade (no sexo pago, no cinema pornô, na aproximação com o bandido João Tripé – Sérgio Bezerra, ótimo), mas guarda anseios de ser diva.

Interessante notar que não é o sentimento de inadequação que os aproxima. É só o desejo puro, o tesão, que parte mais de Elvis, atraída pela mulher que há em Madona. Esta escolha deixa claro que o filme não levanta bandeiras. É comédia romântica e ponto. Parte de um dos motivos clássicos da comédia, a inversão sexual, que já rendeu de caricaturas grosseiras a obras-primas de humor sofisticado, como Quanto Mais Quente Melhor e A Gaiola das Loucas. O filme de Marcelo Laffitte não está nesses dois extremos, mas fica na parte de cima, entregando tudo o que sua ambição promete.

Igor Cotrim, em especial, se dá muito bem com o personagem. Seu perfil de homem-show, que ficou notório durante sua participação no reality “A Fazendaâ€, faz baixar o santo (a santa) de um travesti tipo “bicha deslumbradaâ€. Que não é sensual nem feminino – nem poderia, com o físico bombado do ator –, mas é muito engraçado o tempo todo. Seu personagem não é a paródia agressiva dos humorísticos da TV, mas ainda é um traveco para consumo familiar. Terá a simpatia da vovó mais conservadora, porque ri de si mesmo e faz rir, com a ajuda de diálogos cheios de gírias e duplo sentido. Seria uma boneca apresentadora de programa infantil, se alguém desse chance.

Por tudo isso, é até natural que a atuação de Simone Spoladore chame menos atenção. E a beleza da atriz fica no caminho de quem espera ver uma lésbica motoqueira, ativa, masculinizada. No entanto, há de se notar os detalhes de sua interpretação sutil – que chega a convencer que a mulher na casa dos 30 é uma garota de, no mínimo, dez anos a menos. Simone acerta na dose ao mostrar as imperfeições de Elvis, porque não busca um glamour que sua personagem não tem. Elvis é o apelido de Elvira, uma moça imatura, mais intuitiva que inteligente, e até pouco articulada. Não tem nada da alta cultura da lesbian chic – como provam as rimas fracas da cena de cantoria bêbada, na mesa de um bar.

É outro acerto geral do filme, conseguir muito de personagens que não são brilhantes, nem especialmente atraentes. Madona não é um travesti desses que recebem convites de revistas masculinas. E seus shows musicais são lamentáveis. Elvis é insegura e do tipo que desiste fácil. Esse retrato, mais fiel à mediocridade da vida, é o que o filme tem de real, dentro de uma proposta de soluções artificiais que tanto servem ao gênero da comédia. O bom equilíbrio entre realidade e fantasia dá a Elvis e Madona a sustentação para lidar com suas angústias e a probabilidade de que as coisas não se acertem no final. E não é assim sempre na vida?

* * *

Elvis & Madona

Direção: Marcelo Laffitte

Com: Igor Cotrim (Madona), Simone Spoladore (Elvis) e Sérgio Bezerra (João Tripé).

Avaliação: BOM.

Faça amor, não faça guerra – “Os nomes do amorâ€, de Michel Leclerc

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Por: Natalia Barrenha
Os nomes do amor 2

BUENOS AIRES – Amor e política: dois temas franceses por excelência que Michel Leclerc une em sua comédia romântica Os nomes do amor (Les noms des gens). Há o clássico mote das duas personalidades opostas que se unem, mas Os nomes do amor mete-se em lugares espinhosos da França (de ontem e de hoje) onde a comédia não deveria meter-se – porém, faz isso com tanta leveza e alegria que não há como resistir… da mesma maneira que Arthur Martin não resiste à revolução encarnada por Baya Benmahmoud.

Arthur Martin é um dos 15 mil Arthur Martins existentes na França; nome também de uma longeva marca de fogões ergonômicos, econômicos e resistentes. Por ter um nome tão comum, a fervorosa esquerdista Baya pensa que ele é um conservador, e deseja trazê-lo para a esquerda aplicando um inovador método de conversão ideológica que ela leva a cabo há algum tempo: transar com seus inimigos. A tergiversação do tema do Maio/68 “Faça amor, não faça guerra†tem trazido resultados fabulosos à causa de Baya.

Mas o “tratamento†de Arthur Martin é prejudicado porque ele não pode deixar de lado suas obrigações como ornitólogo. Mesmo que trate com os pássaros quando os bichinhos já foram desta para uma melhor, em tempos de gripe aviária Martin deve estar atento o tempo todo para o caso de uma epidemia, para o cuidado com tudo, para rígidas ações de prevenção. Por outro lado, Martin não é direitista – apesar de vir de uma família extremamente conservadora, ele é fã incondicional de Lionel Jospin, da esquerda (não sei dar mais detalhes da linha jospinista, já que me escapam as sutilezas do universo político francês). E aí é que acontece o baque na estratégia de Baya, que finalmente se apaixona por alguém.

Os nomes do amor esteve no Festival Varilux de Cinema Francês 2011, e tem estreia prevista para 21 de outubro no Brasil. Na Argentina, o filme está em cartaz, mas teve sua première no Festival de Cine Francés, realizado em março deste ano, quando Michel veio a Buenos Aires para apresentá-lo. O diretor contou que escreveu o roteiro junto à sua esposa, também chamada Baya, e de ascendência argelina, como a protagonista do filme. Michel disse que a intenção não era fazer algo autobiográfico, mas eles observavam que eram um casal a partir de cujas famílias se poderia traçar um retrato da França nos últimos 50 anos – e construir uma história das obsessões francesas, abordando temas polêmicos hoje no país, como identidade, imigração, racismo, antisemitismo…

Partindo do nome de Arthur, acedemos à árvore genealógica dos protagonistas, nas quais estão presentes duas grandes tragédias que golpeiam a memória coletiva francesa: invasão nazista e colonização da Argélia. Na tradicional família de Arthur, segredos e silêncios eram moeda constante não só pelos bons costumes e resguardo da moral, mas também pela misteriosa origem de sua mãe, que se tornou órfã durante a Segunda Guerra. Baya, ao contrário, sob mãe francesa (uma militante radical de esquerda) e pai argelino (refugiado da guerra), foi criada na absoluta liberdade, o que configurava um pouco de abandono através do laissez faire tão de moda nos anos 1970/1980.

Michel contou que, durante o casting, pensaram que os protagonistas deveriam ser como uma dupla de palhaços: Martin seria o triste, que não ri e representa a ordem, o que é rígido e direito, enquanto Baya seria o cômico, que faz graça e asneiras. Inicialmente, o personagem de Baya deveria ser árabe – eles imaginavam algo no estilo de uma “Marilyn Monroe árabeâ€, mas não encontraram ninguém que se encaixasse no papel. Abriram os testes para não-árabes e se encantaram com Sara Forestier desde o primeiro momento em que a viram. Com ela, inclusive, poderiam abrir espaço para outra questão que perturbaria a personagem: o fato de não se parecer com uma árabe (tema que também faz parte da vida da roteirista Baya Kasmi). A inocência e sensualidade da dançarina encarnada por Liza Minelli em Cabaret (Bob Fosse, 1972) foram outros pontos importantes na construção de Baya Benmahmoud.

Michel diz que todos sempre querem saber como foi feita a cena em que Baya sai de casa nua – não porque tire sua roupa, mas simplesmente porque esquece de se vestir -, e ele relata que essa foi uma das primeiras tomadas gravadas: Sara pediu que fosse uma das primeiras, porque depois que a vissem nua uma vez ninguém se preocuparia mais com isso. O diretor conta que nem fecharam o metrô para as filmagens, e confessa que as pessoas nem se incomodaram: quando se davam conta de haver visto uma mulher completamente nua no meio da rua, Sara já estava na outra esquina no embalo do frenesi de seu personagem. A cena foi muito importante para gerar uma confiança mútua entre atriz e diretor, e para Sara assimilar que as cenas de nu eram cômicas e burlescas, não tendo na verdade nada de erótico.

O filme foi um êxito completo na França – bilheterias exultantes e dois César (o Oscar francês): um de melhor roteiro original, e outro de melhor atriz para Forestier. Talvez a produção não tenha tanto impacto por aqui, já que podem nos escapar alguns detalhes importantes – como a simpática participação de Lionel Jospin atuando como ele mesmo e levando-se na brincadeira com muita naturalidade.

Através dos relatos confessionais do começo, quando os personagens se dirigem ao espectador, Leclerc interpela os franceses diretamente sobre seus dilemas étnicos e políticos. A comicidade ameniza a correção, e assim o cineasta convida sutilmente a plateia a se incomodar. Mesmo que digam diversas vezes que Leclerc simplifica o conflito utilizando-se de estereótipos para construir uma crítica aos estereótipos, em Les noms de gens os clichês encaixam muito bem no objetivo dos roteiristas de contestar a concepção da identidade como algo determinista. Somados aos chavões da comédia romântica, resultaram em uma boa mistura para rir de um renascente fascismo que toma a Europa (e especialmente a França pós-Sarkozy) e dos lugares comuns da esquerda atual – um dos grandes exemplos é a tradicional cena pós-casamento, em que o casal anda apaixonado pelo bosque, com taças de champanhe nas mãos. Entretanto, aqui, os assuntos dos pombinhos giram em torno dos mais complicados temas que assolam a sociedade francesa contemporânea.

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